O que está atrapalhando Deus na sua vida?

9/15/20269 min read

Domingo passado eu preguei sobre o dia em que Jesus perdeu a paciência.

Ele entrou num lugar, olhou em volta, virou mesa, espalhou dinheiro no chão, derrubou cadeira e botou gente para fora. Eu fui preparar essa mensagem esperando encontrar vilão. Encontrei gente trabalhando. Foi isso que me desmontou a semana, e é isso que eu quero dividir com vocês.

Ele não decidiu aquilo com raiva

Tem um detalhe em Marcos 11.11 que muda a leitura inteira e quase ninguém prega. No domingo, Jesus entra no templo, olha atentamente tudo em volta e, como já era tarde, sai com os doze para Betânia.

Ele viu tudo no domingo. Dormiu fora. Voltou na segunda-feira com a decisão tomada.

Quando eu entendi isso, percebi que estava diante de um ato pensado, na mesma linha de Jeremias quebrando a botija diante dos anciãos. Jesus não estava fazendo faxina naquele pátio, estava pronunciando sentença. Marcos coloca a cena dentro da história da figueira de propósito: folhagem exuberante, aparência de vida, nenhum fruto. A figueira é o templo.

O incômodo: aquela gente estava certa

Aqui começa a parte que me tirou o sono.

O cambista tinha motivo para estar ali. O imposto do meio siclo foi Deus quem instituiu, em Êxodo 30. O tesouro só aceitava o siclo de Tiro, a prata mais confiável do Mediterrâneo, com 94 a 97 por cento de pureza, enquanto o denário romano tinha uns 80 por cento. O peregrino chegava de Roma com denário, de Alexandria com dracma. Sem cambista, ele não conseguia obedecer a Deus.

O vendedor de animais também. Leia Deuteronômio 14.24-26 com calma, porque esse texto surpreende a maioria das igrejas. Deus diz, em resumo: se o caminho for longo demais, venda o que você tem, leve o dinheiro e compre em Jerusalém o boi, a ovelha, o que a sua alma desejar. Está escrito. Deus mandou vender lá e comprar cá. O homem que vendia cordeiro estava cumprindo a logística que o próprio Deus desenhou. Ninguém ia atravessar cento e cinquenta quilômetros da Galileia carregando um boi.

E repare: depois de virar as mesas, Jesus não fechou o templo, não proibiu sacrifício, não decretou o fim das ofertas. Continuou indo lá todos os dias para ensinar.

O problema nunca foi a natureza daquelas coisas. Foi o endereço delas.

A moeda que tinha o rosto de um deus falso

Essa é a parte do estudo que eu mais demorei a digerir.

A única moeda considerada digna do cofre da casa do Deus de Israel trazia gravada a cabeça de Melcarte-Héracles, uma divindade pagã, e no verso uma águia sobre a proa de um navio. Uma imagem esculpida de um deus falso, exatamente o que o segundo mandamento proíbe, circulando dentro do tesouro do templo.

Como é que homens que morreriam pela Torá aceitaram isso?

Eles construíram uma justificativa, e ela é tecnicamente engenhosa: dinheiro em circulação não é imagem, é instrumento. O que importa é o teor da prata, não o desenho. Ninguém está adorando Melcarte, estão usando metal. Do ponto de vista técnico, o argumento até se sustenta.

Foi uma decisão pragmática. A lei religiosa se curvou à realidade econômica. Os sacerdotes taparam o nariz e aceitaram o dinheiro.

E aqui está o que eu levei para casa: ninguém acordou um dia decidindo transformar o templo numa feira. Começou com uma exceção razoável, que tinha justificativa, lógica, necessidade real e até apoio de autoridade respeitável.

Só que exceção institucionalizada deixa de ser exceção e vira estrutura. E estrutura cria emprego, cria receita, cria interesse, e passa a se defender sozinha. O cambista existe porque a moeda pagã foi aceita. O ágio existe porque o cambista existe. O monopólio existe porque o ágio existe. E o pátio das nações foi tomado porque o monopólio precisava de espaço.

A feira que Jesus derrubou começou como uma boa ideia.

Tem um fecho nessa história que quase ninguém prega. Poucos dias depois, os principais sacerdotes pesam trinta moedas de prata e entregam a Judas. Numismatas entendem que aquelas moedas eram, muito provavelmente, siclos de Tiro, porque era a moeda-padrão do tesouro de onde o dinheiro saiu. O preço do Filho de Deus foi pago com a moeda que trazia o rosto de um deus falso, tirada do cofre da casa do Pai dele.

Toda concessão tem um custo que só aparece no final.

A escada que foi feita para desacelerar o seu coração

Para entender a reação de Jesus, você precisa saber onde aquilo estava acontecendo. E aqui a arqueologia trabalha a favor do pregador.

Imagine que você é o peregrino. Veio de longe e chega a Jerusalém pelo sul.

Primeiro a água: antes de subir, você se imerge num banho ritual. Os arqueólogos escavaram dezenas desses tanques exatamente na base sul do monte. Você entra sujo da estrada e sai purificado.

Depois a escada. E aqui tem o detalhe que me emociona toda vez que eu conto. Aqueles degraus, que ainda hoje estão lá e podem ser vistos, não são regulares. Seguem um padrão de longo, curto, longo, curto. E isso é de propósito, para que ninguém consiga subir correndo.

A escada foi projetada para desacelerar o seu coração. Deus não queria que você chegasse à casa dele com pressa. Cada degrau irregular era um freio, um convite a olhar para dentro antes de olhar para o altar.

Depois o túnel. Você entra pelos Portões de Hulda, sobe por um corredor coberto e emerge do escuro para a luz, de frente para o santuário.

Você passou pela água. Subiu devagar. Atravessou o escuro. E o que encontra no topo?

Feira. Bramido de boi, balido de ovelha, gaiola de pomba, gritaria de vendedor, discussão de câmbio, cheiro de esterco.

Deus construiu um banho embaixo para o homem se purificar, desenhou uma escada irregular para ele desacelerar, abriu um túnel escuro para ele emergir na presença. E montaram feira exatamente no ponto de chegada. O sujeito se purificava embaixo e se sujava subindo, atravessando esterco com o corpo ainda molhado da água santa. A preparação inteira era desfeita nos últimos vinte metros.

Uma observação de honestidade, porque eu não quero exagerar para comover ninguém: aquele pátio tinha cerca de 144 mil metros quadrados, quase vinte campos de futebol, e ninguém ficou entalado ali. O impedimento era funcional, não geométrico. Dava para passar. O que não dava era chegar como se devia chegar.

Os quatro que ficaram de fora

O coração desse texto não está no barulho das mesas caindo. Está em quem não conseguiu chegar.

O peregrino comum. Conseguiu atravessar, mas não conseguiu atravessar em oração. Chegou ao altar com a cabeça no preço do cordeiro, trocou preparação por barganha.

O que se purificou e se sujou. Fez tudo certo, entrou na água, subiu devagar, e chegou lá em cima contaminado pelo caminho. A obediência dele foi desfeita no trajeto pela sujeira de outra pessoa.

O pobre. E aqui eu preciso que você preste bastante atenção. A mulher que acabara de ter filho e não podia pagar um cordeiro oferecia duas pombas. Está escrito em Levítico 12.8: "se as suas posses não bastarem para um cordeiro". Deus escreveu uma provisão para os pobres dentro da própria Lei. A pomba era a graça de Deus em forma de desconto, Deus dizendo que a adoração dele não ia ficar cara demais para os filhos dele. E foi essa a oferta de Maria e José quando levaram Jesus ao templo. A mãe do Senhor era pobre demais para o cordeiro.

A Mishná registra que um par de pombas chegou a custar um dinar de ouro em Jerusalém, até que Rabban Simeão ben Gamaliel jurou pelo templo que não deixaria a noite passar sem derrubar aquele preço, e conseguiu baixá-lo para um quarto de dinar de prata. Faça a conta comigo: um dinar de ouro valia cerca de vinte e cinco dinares de prata, e o preço justo era um quarto de dinar de prata. A alta chegou perto de cem vezes.

Pensa no que acontece com a mulher que não consegue pagar. Ela não oferece. Não oferecendo, não se purifica. Não se purificando, continua excluída, e não por uma semana. Deus barateou a provisão de propósito para que ninguém ficasse de fora, e eles encareceram a provisão barata e refizeram a exclusão que Deus tinha desfeito. Aquilo virou catraca instalada na porta da graça.

O gentio. Para o judeu, a feira era atraso e humilhação, e ele seguia adiante. O gentio não seguia. Havia uma murada baixa de pedra, o soreg, com placas gravadas em grego avisando que estrangeiro que passasse dali respondia pela própria morte. Duas dessas placas foram encontradas, a primeira em 1871.

Pensa nesse homem. Ele atravessou o mundo conhecido, ouviu falar do Deus único, largou seus ídolos, viajou meses. E o pátio de fora era o fim da linha dele, era tudo que ele tinha. Aquele espaço tomado pela feira era o único lugar do planeta onde ele podia orar. Para ele aquilo não foi atraso. Foi confisco.

Marcos é o único evangelista que preserva a citação de Isaías inteira: "a minha casa será chamada casa de oração para todas as nações". Ele escrevia para gentios. Não ia cortar justamente aquela parte.

A porta de emergência

Essa foi a imagem que eu usei no domingo, e é a que ficou na cabeça do povo.

Todo prédio tem porta de emergência, aquela com a placa verde e o bonequinho correndo. E em quase todo prédio que eu já entrei tem alguma coisa encostada nela: uma caixa de papelão, um armário velho, material de limpeza, uma mesa que sobrou da reforma.

Nada daquilo é ilegal. Nada daquilo é lixo. Cada objeto ali tem função e valor, alguém pagou por ele. A caixa é boa, o armário é bom, a mesa é boa.

Mas no dia do incêndio, aquela caixa boa vira homicídio.

Coisa boa na frente da saída deixa de ser coisa boa. Ela não muda de natureza, muda de função. E a função é definida pelo lugar.

A gente vive perguntando "isso é pecado?". A pergunta é boa, mas é curta demais, porque a resposta quase sempre é não e a gente segue tranquilo. Paulo já tinha percebido isso em 1 Coríntios 6.12: "todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convêm". São duas perguntas, e não uma. Isso é lícito? E: isso está no lugar certo da minha vida?

O trabalho não é pecado, mas onde ele está? O celular não é pecado, mas onde ele está? Ambição, sonho, ministério, nada disso é pecado. Mas onde estão? Tem coisa boa demais encostada em porta demais.

Onde está o templo hoje

Primeiro a murada caiu. Efésios 2.14 diz que Cristo derribou a parede de separação, e é daquele soreg que Paulo está falando, daquela murada com a placa de morte. O que Jesus defendeu com as mãos em Marcos 11, ele conquistou com as mãos pregadas no Calvário.

Depois o templo virou gente, e nessa ordem: 1 Coríntios 3.16 diz "sois santuário de Deus", no plural, a igreja. E então 1 Coríntios 6.19: "o vosso corpo é santuário do Espírito Santo", agora você.

E tem um detalhe no original que muda tudo. O grego tem duas palavras para templo. Hierón é o complexo inteiro, os pátios, a área de fora. Naós é o santuário propriamente dito, o lugar onde Deus habita. Em Marcos 11, Jesus entra no hierón, porque a feira estava no pátio de fora. Mas quando Paulo diz que o seu corpo é santuário do Espírito Santo, ele usa naós.

Paulo está dizendo que você é o Santo dos Santos. Deus não se mudou para a antessala. Ele se mudou para o lugar mais santo que existe e habita ali pelo Espírito.

A pergunta que eu deixei no domingo

Eu não terminei perguntando se tem pecado na sua vida. A pergunta que eu fiz para a igreja foi outra, e é a mesma que eu faço a você agora:

O que está atrapalhando Deus em você?

Porque o que está no fundo do templo atrapalha você. Mas o que está na porta atrapalha todo mundo que quer chegar até Deus através de você.

Sua agenda não é pecado, mas ela está na porta? Seu cansaço, sua mágoa antiga, seu ressentimento com aquela pessoa da igreja, nada disso é crime. Mas está na porta? Tem gente ao seu redor indo embora sem chegar, e não porque você é mau. Porque você está ocupado.

No versículo 11, Jesus entrou e olhou tudo em volta. Ele está fazendo isso agora, nesse templo que é você. E talvez ele não esteja encontrando nada ilegal, nada que você precise confessar com vergonha. Talvez esteja encontrando só coisas boas, sentadas na cadeira onde ele deveria estar. E elas precisam sair, não porque são más, mas porque estão no lugar errado.

Repare no que Jesus fez depois de derrubar: ele ensinava, e o original indica ação contínua, seguiu ensinando. Enquanto tinha feira, não dava para ouvir. Ele nunca limpa para deixar oco, limpa para encher com a presença dele. Se hoje ele está mexendo em alguma coisa na sua vida, entenda isso como preparação de espaço.

E uma última coisa. Aquele pátio era das nações. Você também tem um pátio dos gentios, que é o espaço que Deus reservou em você para quem ainda está de fora. Pensa num nome agora, uma pessoa longe de Deus que passa perto de você toda semana. Essa semana, tira alguma coisa da porta e deixa essa pessoa chegar.

Este estudo nasceu de uma pregação. Se você quiser ler com calma, imprimir ou levar para a escola bíblica, ele está diagramado em PDF, com a planta do templo, as quatro perguntas de autoexame, um desafio de sete dias e a oração de resposta.